ARTIGO

Aids e pobreza uma realidade gritante

Rodrigo Pinheiro

Presidente Foaesp

 

Iniciativas no mundo inteiro trazem à tona a realidade da aids, uma epidemia que há mais de três décadas tem exigido ações de enfrentamento, além da questão biomédica, sobretudo no combate ao preconceito e ao estigma.No entanto, um dado tem chamado a atenção e mostrado uma face ainda mais perversa desta realidade. O crescimento da aids entre populações mais pauperizadas torna o quadro de exclusão ainda pior. O número de pessoas em situação de rua, de moradores nos bolsões de pobreza e de famílias sobrevivendo sem condições mínimas de dignidade que circulam nas regiões metropolitanas veem cada vez mais a problemática da aids avançar em seu cotidiano. Neste caso, além das dificuldades de acesso aos serviços de saúde, ao diagnóstico, tratamento e medicamentos se soma a carência de alimentação, saneamento, educação de qualidade e, sobretudo, oportunidade de emprego e renda.

Infelizmente a conjunção de esforços que contemplem esta intersecção não prospera, o que aumenta consideravelmente as vulnerabilidades sociais. As ações de governo ainda teimam em ignorar a pauperização da aids, inclusive nas campanhas publicitárias massivas nas quais opta-se por rostos jovens e sorridentes que exibem um ideal bem diferente da realidade que assola periferias, favelas e regiões degradadas das grandes cidades.

Para completar, quanto mais vulnerável, mais difícil o acesso da população à informação sobre saúde em geral, e aids em particular. O Brasil tem sido pioneiro na implantação  da profilaxia pré-exposição sexual (PrEP) ao HIV, atingindo hoje mais de 11 mil tratamentos. No entanto o desafio maior reside na dificuldade de acessar as populações pauperizadas, facilitando o acesso a esta informação nos serviço de saúde e nas áreas de circulação e moradia destes grupos. 

Recente relatório   do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostra  que o número de casos novos aumentou 21% no Brasil desde 2010. Estamos na contramão do resto do mundo: nos últimos oito ano, houve uma redução de 16% da taxa de pessoas infectadas pelo vírus em todo o mundo.  Somente no ano passado foram 53 mil  novas notificações,  seis a cada hora, sendo que a grande maioria se concentra nos grupos mais vulneráveis, em especial onde a pobreza é  transversal como realidade. A ação conjunta de iniciativas governamentais é o caminho para tentar amenizar esta questão. Enquanto as áreas de saúde, assistência, educação e combate à fome – entre outras – não estiverem integradas, somando esforços, continuará o compartilhamento de projetos que de forma isolada pouco ou nada resultam em benefício de quem mais os necessitam.

A sociedade civil e o movimento social de luta contra a aids tem chamado a atenção para esta realidade já há algum tempo. Esperávamos integração de agendas e respostas efetivas, principalmente para os mais excluídos, infelizmente as barreiras encontradas surpreende principalmente pela falta de vontade política. Ultimamente tais barreiras se ampliam com o recrudescimento de ações de exclusão, limitações sociais e ampliação do pensamento conservador e da cultura de ódio, principalmente no momento em que a aids atinge populações historicamente excluídas e marginalizadas.

Cabe ainda destacar que a aids continua sendo um problema de saúde pública e a importância na manutenção desta política é imprescindível para sua equalização. Com a evidente vulnerabilidade dos mais pobres e alvos constantes do preconceito e da exclusão, corremos o risco de ampliar o abismo social já existente no Brasil.

No entanto, ainda não há nos estados e municípios uma consciência da necessidade de ampliação dos investimentos locais no enfrentamento da aids, muito pelo teto dos gastos que estão sobrecarregando estes entes federados nos gastos com saúde. Embora este esforço se faça conjuntamente, não podemos abrir mão deste momento dos blocos de financiamentos, que garantem uma responsabilização do gestor e uma oportunidade a mais do controle social de acompanhar a execução, indicando caminhos e fiscalizando aplicações.