São muitas as ações necessárias pelo novo governo para que a luta contra a aids seja novamente prioridade no Brasil. Vou listar algumas que devem ser observadas. A primeira delas pode ser a renomeação pelo Ministério da Saúde (MS) do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/aids e das Hepatites Virais. O atual governo deixou o termo HIV/aids invisível, enfraquecendo a resposta na luta contra a aids.
Outra medida fundamental para o protagonismo do campo é evitar o corte orçamentário de mais de R$ 400 milhões anunciados pelo governo federal, que impactarão profundamente a política de aids no país. Os cortes atingem ações de prevenção e controle e compra de insumos, como testes, por exemplo. Sem o correto diagnóstico, não há condições de tratamento. Quando não efetua a compra de preservativos masculinos, femininos e gel lubrificante, o MS sobrecarrega os estados e os municípios.
Importantes espaços de participação da sociedade civil e de fortalecimento do controle social foram extintos no atual governo. É importante reverter a extinção da Comissão Nacional de IST, HIV/aids e das Hepatites Virais (Cnaids) e recriar a área de direitos humanos do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/aids e das hepatites virais.
A intersetorialidade é fundamental no enfrentamento da epidemia de aids e devem ser observadas questões como contexto social e direitos humanos. É necessária a articulação de demandas, para que haja uma resposta comunitária para a emancipação, a autonomia e a proteção social das pessoas que vivem com HIV/aids (PVHA).
É necessária a construção de políticas públicas para que jovens possam receber informações dentro das escolas sobre questões de prevenção ao HIV/aids e às infecções sexualmente transmissíveis. 
É fundamental discutir e combater o estigma, o preconceito e a discriminação das pessoas que vivem com HIV/aids, das populações mais vulneráveis ao HIV, pobres, pretos, periféricos, indígenas, pessoas privadas de liberdade, em situação de rua e populações trans e LGBTQIAP+. É inadmissível esta situação de preconceito depois de mais de 40 anos de epidemia de aids.
É necessária a incorporação de novos medicamentos no Sistema Único de Saúde, o que não acontece desde 2017. O MS precisa discutir sobre o licenciamento compulsório do medicamento dolutegravir, o mais utilizado por PVHA. Há risco iminente da falta deste medicamento por conta de impasses jurídicos entre dois laboratórios e a situação precisa ser resolvida.
Há muitas outras importantes demandas, estes acima são alguns destaques. São várias oportunidades para que o ano de 2023 comece diferente, para que as políticas de enfrentamento ao HIV/aids sejam novamente protagonistas no Brasil, e para que as respostas sejam efetivas, pois ainda temos no país mortalidade por aids anual superior a dez mil casos, segundo Boletim Epidemiológico de 2021.  

*Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum das Ong/aids do estado de São Paulo (Foaesp)